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É possível evangelizar sem a oração?

03.11

É possível evangelizar sem a oração? Um questionamento que bate forte à nossa porta e nos obriga a parar para podermos compreender o que se entende por evangelização. Me parece que às vezes se tem a impressão que dentro da Igreja há pessoas que confundem a evangelização com ação social: fazer dar de comer, ajudar os pobres, servir aos mais necessitados, mas deixando de lado o anúncio corajoso da pessoa de Jesus.

O cristão é evangelizador em tudo o que ele faz e o seu coração, como o de Paulo, queima forte pelo Reino de Jesus. Evangelizar não é um trabalho qualquer nem uma atividade que se escolhe para ter o que comer ou ter uma vida mais tranquila e folgada. É uma exigência interior: “ai de mim se eu não evangelizar”. Havia momentos que Paulo não sentia nenhuma vontade de anunciar o nome de Jesus porque sabia que isto lhe acarretaria muitos sofrimentos e dores. Era preferível calar-se, mudar de rumo e fazer outras coisas. Mas não lhe era possível, havia nele algo de mais forte do que a sua vontade humana. Assim a leitura atenta dos profetas nos faz encontrar que muitos profetas, diante da escolha de Deus se detém profundamente para poder fugir da responsabilidade e não consegue. Basta se lembrar de Moisés, ele discute com Deus, tenta indicar para Deus pessoas mais capazes, mas Deus se torna quase “cruel” com o mesmo Moisés e o coloca com as costas na parede “vai”, e Moisés se vê obrigado a ir lá onde Deus quer que ele vá.

Assim sentimos profundamente a fragilidade e o medo de Jonas que é enviado a Nínive para anunciar a libertação e Jonas, medroso, toma o caminho para Tarsis para se esconder do envio de Deus. E Deus, com mão firme, o faz voltar ao rumo certo. E como esquecer a relutância de Jeremias, de Isaías? E como não lembrar Amós que estava sereno e tranquilo cuidando do seu rebanho e das suas plantações de sicômoros e Deus o envia para anunciar paz e justiça e diante da constatação do rei o mesmo Amós dirá: “eu não sou nem profeta e nem visionário, Deus me enviou”? Como não lembrar a mesma resistência dos apóstolos em deixar tudo e seguir Jesus para tornarem-se pescadores de homens?

Poderíamos passar atentamente na galeria dos santos e das santas e sempre nos encontraríamos com resistências para o anúncio do Evangelho. O medo do fracasso, da incompreensão e da cruz. Mas diante de tudo isto nos deparamos com homens corajosos, com mártires capazes de entregar a própria vida sem reservas para o anúncio do Reino, e derramar o próprio sangue. Por que tudo isto? Onde eles encontravam a força para não desanimar e não fugir da responsabilidade?

 

Oração
A força dos profetas, dos mártires, dos apóstolos é uma só: a oração. É no diálogo íntimo, pessoal com Deus que brota uma força que nada e ninguém pode parar. Não podemos anunciar uma pessoa desinteressadamente se não somos apaixonados por esta pessoa. O apóstolo o evangelizador é alguém que, tendo encontrado Jesus, como Paulo na via de Damasco, no deserto ou no silêncio, foi seduzido e vencido por um ideal. Quantas vezes me parece ouvir no fundo do coração e no mais íntimo do ser as mesmas palavras que Paulo ouviu no caminho de Damasco: Saulo, Saulo por que me persegues? E Saulo, tomado por medo mas também fascinado pela luz e pelo amor, responde: “quem és tu, Senhor?” E a voz confirma: “sou aquele Jesus que tu persegues”…

Hoje nós somos perseguidores de Jesus quando não assumimos a missão evangelizadora, ou quando por medo, preferimos um evangelho “dietético”, que se acomode a todas as correntes do pensamento humano. Eu tenho medo que às vezes anuncie um Cristo revestido e apresentado com tantas facetas, para se entender um Cristo que tem um não sei quê de budismo, de marxista, de muçulmano, de espírita, de protestante… um Cristo tão ecumênico que não é mais o Cristo do evangelho do anúncio corajoso que não tem medo. Ser ecumênico não quer dizer adaptar o Cristo a todos os movimentos mas sim ser fiéis ao Cristo até à morte. Me parece que hoje nos falta a coragem de sermos mártires, o desejo de sermos mártires, e só assim poderemos falar de Jesus com convicção e amor. Ninguém pode fugir desta missão de proclamar. Por isso que a oração é a fonte de onde brota a evangelização.

Para esta pedagogia da santidade, há necessidade dum cristianismo que se destaque principalmente pela arte da oração. Mas a oração, como bem sabemos, não se pode dar por suposta; é necessário aprender a rezar, voltando sempre de novo a conhecer esta arte dos próprios lábios do divino Mestre, como os primeiros discípulos: «Senhor, ensina-nos a orar» (Lc 11,1). Na oração, desenrola-se aquele diálogo com Jesus que faz de nós seus amigos íntimos: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós» (Jo 15,4). Esta reciprocidade constitui precisamente a substância, a alma da vida cristã, e é condição de toda a vida pastoral autêntica. Obra do Espírito Santo em nós, a oração abre-nos, por Cristo e em Cristo, à contemplação do rosto do Pai. Aprender esta lógica trinitária da oração cristã, vivendo-a plenamente sobretudo na liturgia, meta e fonte da vida eclesial, mas também na experiência pessoal, é o segredo dum cristianismo verdadeiramente vital, sem motivos para temer o futuro porque volta continuamente às fontes e aí se regenera.(NMI 32)

Quem não reza não vai sentir o entusiasmo, a paixão, o amor transbordante por Jesus. E o anúncio que não toca o coração se esvai. São João da Cruz, com seu tom duro mas certeiro, me faz medo e me coloca em crise: “muito bem fariam os pregadores do evangelho.

“Minha alma se há votado, com meu cabedal todo, a seu serviço; já não guardo mais gado, nem mais tenho outro ofício, que só amar é já meu exercício. Considerem aqui os que são muito ativos, e pensam abarcar o mundo com suas pregações e obras exteriores: bem maior proveito fariam à Igreja, e maior satisfação dariam a Deus – além do bom exemplo que proporcionariam de si mesmos, – se gastassem ao menos a metade do tempo empregado nessas boas obras, em permanecer com Deus na oração, embora não houvessem atingido grau tão elevado como esta alma de que falamos…” (Cântico 28, 3)

Quem sabe se eu mesmo deva rever o meu apostolado e me colocar na escuta de Jesus como Maria em Betânia e, escutando Jesus, possa falar dele com mais amor. É o caminho da oração que nos dá a alegria de anunciar; não porque o anúncio é acolhido mas porque uma força maior do que nós nos manda anunciar.

 

Santa Teresinha
O Carmelo, desde o seu início quando Teresa movida pelo Espírito Santo fundou uma nova Ordem Carmelita e, com a ajuda de João da Cruz, o complementou com os carmelitas descalços de maneira que “monjas e frades” formam uma única realidade, sempre teve a clareza da força da oração como apostolado. A Igreja e seus problemas se tornam problemas e necessidades do mesmo Carmelo.

“A Santa Madre (Teresa) transmitiu a suas filhas seu próprio espírito apostólico, desejando que se afeiçoassem ao bem das almas e ao aumento da Igreja, sinal evidente da verdadeira perfeição. Por isso lhes indicou o serviço eclesial da oração e da imolação, como finalidade da vocação para a qual o Senhor mesmo as havia reunido no Carmelo.” (Constituições das Carmelitas Descalças 125)

Teresa diz: “no dia em que vossos trabalhos, orações e jejuns não forem pela Igreja, considerai que não atingis o objetivo para o qual o Senhor as reuniu aqui. (Caminho 3,10)” Esta chama viva de amor eclesial e apostólico foi tomada e tornada mais acesa pela teologia vivencial e vocacional de Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela é o novo paradigma da força da oração como apostolado. É só acolher e entender o que diz no manuscrito C: “na Igreja, minha mãe, serei o amor”. Não podendo abraçar toda a Igreja e todos os lugares escolhe o caminho que abraça a todos. “Serei missionária pela oração e pelo sacrifício. “Tenho a vocação de ser Apóstolo… quisera percorrer a terra, pregar teu nome e plantar sobre o solo infiel tua Cruz gloriosa.(MB 2v)”
Fazer apostolado é um momento da vida, um espaço da vida. Para todos vai chegar o dia em que, por força da idade, da doença, ou de outros acontecimentos, deixaremos de “fazer apostolado”, de anunciar com palavras e obras, mas nunca podemos deixar de “ser apóstolos”, porque isto faz parte “geneticamente” do nosso ser cristão.

                                                                                                                                                                       Fonte: Comshalom.org


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